Conto de merda

Padrão

Após mais um dia de merda, ela estava cansada e desejava relaxar.

Encaminhava-se para seu hobby, quando lembrou de tarefa há muito postergada.

Iam entregar a casa. Não tinham dinheiro para comprar outro. Não tinham dinheiro para contratar alguém. Não tinham saída.

Precisava limpar a dura crosta que há meses e meses jazia .

 

Ele não tinha coragem. Não conseguia lidar. Tinha tido TOC na infância e esse ainda deixava seus resquícios. Ele não podia. Não faria.  Não tocava.

 

Ela foi fazer, fingindo ser cotidiano. Se preparou. Vestiu a túnica. Calçou as luvas. Pôs os óculos.

Pegou o ácido.

Ácido Muriático. Logo ela, ruim de nomes, gravou. Mas só porque parecia Murialdo, o santo protetor da capela do morro. Santo Muriático.

 

Se não desse, amanhã o dono daria o ultimato: tanto de um novo, tanto de mão de obra. Não tinham tanto, logo, mãos à obra.

 

Foi. E já falhava na primeira tarefa. Não conseguia abrir. Não podia pôr a boca, que era o que resolvia tudo. Pra um lado e outro, não ia. Pegou a faca, suja de comida. Comida ácida. Faca virou arma de super-herói. heroína.

Enfiou. Só saia aos pingos. Chuva ácida. Tinha cheiro de mijo, ironia. 2 litros. Demorou horas pra acabar. Não havia luvas que guardassem tantos ml.

 

Gotículas corroíam o marrom dos tempos. O marrom de décadas. O marrom deles e o marrom de todos os outros que vieram antes. O marrom de tantos desconhecidos, de fantasmas, de velhos e crianças. O renegado, denegrido. O gozo marrom. Corroído. Centímetro a centímetro.

Não era o suficiente. Pegou uma escova.

 

Já com as pernas cansadas da posição defensiva, idêntica a de meses antes, sofrendo, com o corpo inteiro chorando, chovendo. Ácido salgado saía de si. Esfregava. Não funcionava. Pegou outra escova. Não funcionava.

Tomou uma decisão. Meteu a mão enluvada. Melhorou. Saía. Enfim. Depois de tanto tempo. Depois de tanto H20, Cl e medo. Saía. Saía.

 

Mas não saiu tudo. A dura, grossa, teimosa crosta. Saída de tanta gente, de tantos órgãos negados, renegados, gozados. Não queria se expelir novamente. Não queria se esgotar em mundos desconhecidos, se desfazer.  Tomou forma e permaneceu. Gostou. Ao contrário de todas as casas do mundo, gostou. Diz Freud, também gostaram. Todo mundo é feliz, diz Lacan.

 

Ela pensou, tem coisas que só na unha. E com garra, foi. Aquelas unhas que tanto às costas dele se dedicaram. Aquelas mãos que tanto seu rosto acariciara. Aqueles membros puros. Amados. Massageados. Foi tudo à merda.

 

Esfregou consigo e com toda a sua fé. Esfregou com todo o seu amor. Descarregou toda sua força. Enquanto caía o mundo e chovia inteira, esfregava.

Saiu de lá.

Mas ficou nela.

Nemo potuit tangere.

 

Após tamanho sufoco, inteira molhada não sabia de quê, com a pele queimando onde as luvam não bastavam, havia acabado. Havia se livrado. Por ele. Conseguiu. Após descer ao mundo dos mortos, que agora desciam em procissão furacônica, saudados por água e ácido em um céu de paz, ela, suada, saudita, Conseguiu. Catártico.

 

Foi arrumar as coisas, porque estava tudo tocado e ele não podia. Havia sobrado muriático. Estava furado. Corrompido. Molhado. Não podia jogar fora. Não podia jogar o ácido a mãos outras. Era sua responsabilidade. Mas o ácido era da mãe, não podia desperdiçar. Não podia corrompê-lo com o nada, posto que mais que niilista, o ativo era pragmático.

 

Lembrou do resto da sujeira. Sujeira virou solução. Jorrou o muriático nos azulejos, aqueles com a sujeira que, não sabia bem porquê, a incomodavam. Talvez fosse a mãe, que a fez notar pela primeira vez. Jorrou ácido para por fim a tudo. Já não usava mais luvas. Só o que a protegia era a própria sujeira. A imundície de si transtornada. derramada. nua. Suas mãos descascavam. Jogou-o pirilampiando por tudo onde podia ver. Como uma criança com espuma de carnaval. Jorrava muriático por todo o espaço. Ácida festa.

 

Foi limpar o resto, pôs tudo em um saco. Quanto gastara ali e tudo indo para o lixo, pensaria a mãe. Mas alívio era. Limpo. Branco. Estava.

Alívio, ele não teria mais nojo de ali estar.

Só nela. Nela teria. Ficaria com as outras, limpas. Jamais tocaria de novo em alguém tão impuro, pensava.

 

Jogou tudo no lixo e foi se livrar da própria sujeira. Abriu o chuveiro e choveu felicidade: a água estava gelada, mesmo após um dia quente. Benção dos deuses. Água muriáldica. Ensaboou-se com dois sabonetes ao mesmo tempo. Água jorrava e lavava sua alma. Estava acabado. Ela conseguira. Fizera por ele. Fizera o que ele não conseguia e o que dizia não ser possível. Ela fez. Por amor.

 

Em êxtase e infinitamente molhada de água boa, enfim relaxou.

Encostou na parede para respirar em paz.

Para no segundo seguinte haver um grito ensurdecido pela sua própria imensa dor.

Caiu no chão. Já não caía mais água benta. Caía ácido, que a tomou inteira. Caía ácido, e o tomou inteiro. Caía ela que, como em banheira, mergulhou para a vida límpida eterna.

Anúncios

Uma resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s