Perigozo

Padrão

Invisível

dissolvível

transparente

rente

ao corpo

quente

se sente

ncia

no cio

chegando

mas quando

chega

cega

até

cega vê.

O conflito

mundano

a crise

existencial

a luta

de classes

a opressão

a repressão

a ovulação

só existe

porque ele

transparente

gritável

insano

insiste

em resistir

ao difícil

ao cansaço

à dor

ao amargo

ao sexo

ao sexismo

à castidade

ao sagrado

à proibição

à frigidez

imposta

ao membro

exposto

ele

como ela

ela

invejada

por eles

feita

dele

tem

dentro

de si

o perigo

a bomba

que explode

que implora

ele

que ninguém vê

que só ela sente

que fingem inexistir

que fingem fingir

eles

sabem

que é só dela

e por isso

o deixam

raro

inexistindo

inexistente

xingam

o orifício

humilham

coagem

sufocam

inventam

inveja

do falo

inata

eterna

pra disfarçar

pra inverter

pra ocultar

o fato

mas quando ela

descobrir

ela

sentir

cessará

opressão

haverá

revolução

por isso

eles

que nunca

sentem

que nunca

sentirão

a matam

pela morte

que nunca terão

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Conto de merda

Padrão

Após mais um dia de merda, ela estava cansada e desejava relaxar.

Encaminhava-se para seu hobby, quando lembrou de tarefa há muito postergada.

Iam entregar a casa. Não tinham dinheiro para comprar outro. Não tinham dinheiro para contratar alguém. Não tinham saída.

Precisava limpar a dura crosta que há meses e meses jazia .

 

Ele não tinha coragem. Não conseguia lidar. Tinha tido TOC na infância e esse ainda deixava seus resquícios. Ele não podia. Não faria.  Não tocava.

 

Ela foi fazer, fingindo ser cotidiano. Se preparou. Vestiu a túnica. Calçou as luvas. Pôs os óculos.

Pegou o ácido.

Ácido Muriático. Logo ela, ruim de nomes, gravou. Mas só porque parecia Murialdo, o santo protetor da capela do morro. Santo Muriático.

 

Se não desse, amanhã o dono daria o ultimato: tanto de um novo, tanto de mão de obra. Não tinham tanto, logo, mãos à obra.

 

Foi. E já falhava na primeira tarefa. Não conseguia abrir. Não podia pôr a boca, que era o que resolvia tudo. Pra um lado e outro, não ia. Pegou a faca, suja de comida. Comida ácida. Faca virou arma de super-herói. heroína.

Enfiou. Só saia aos pingos. Chuva ácida. Tinha cheiro de mijo, ironia. 2 litros. Demorou horas pra acabar. Não havia luvas que guardassem tantos ml.

 

Gotículas corroíam o marrom dos tempos. O marrom de décadas. O marrom deles e o marrom de todos os outros que vieram antes. O marrom de tantos desconhecidos, de fantasmas, de velhos e crianças. O renegado, denegrido. O gozo marrom. Corroído. Centímetro a centímetro.

Não era o suficiente. Pegou uma escova.

 

Já com as pernas cansadas da posição defensiva, idêntica a de meses antes, sofrendo, com o corpo inteiro chorando, chovendo. Ácido salgado saía de si. Esfregava. Não funcionava. Pegou outra escova. Não funcionava.

Tomou uma decisão. Meteu a mão enluvada. Melhorou. Saía. Enfim. Depois de tanto tempo. Depois de tanto H20, Cl e medo. Saía. Saía.

 

Mas não saiu tudo. A dura, grossa, teimosa crosta. Saída de tanta gente, de tantos órgãos negados, renegados, gozados. Não queria se expelir novamente. Não queria se esgotar em mundos desconhecidos, se desfazer.  Tomou forma e permaneceu. Gostou. Ao contrário de todas as casas do mundo, gostou. Diz Freud, também gostaram. Todo mundo é feliz, diz Lacan.

 

Ela pensou, tem coisas que só na unha. E com garra, foi. Aquelas unhas que tanto às costas dele se dedicaram. Aquelas mãos que tanto seu rosto acariciara. Aqueles membros puros. Amados. Massageados. Foi tudo à merda.

 

Esfregou consigo e com toda a sua fé. Esfregou com todo o seu amor. Descarregou toda sua força. Enquanto caía o mundo e chovia inteira, esfregava.

Saiu de lá.

Mas ficou nela.

Nemo potuit tangere.

 

Após tamanho sufoco, inteira molhada não sabia de quê, com a pele queimando onde as luvam não bastavam, havia acabado. Havia se livrado. Por ele. Conseguiu. Após descer ao mundo dos mortos, que agora desciam em procissão furacônica, saudados por água e ácido em um céu de paz, ela, suada, saudita, Conseguiu. Catártico.

 

Foi arrumar as coisas, porque estava tudo tocado e ele não podia. Havia sobrado muriático. Estava furado. Corrompido. Molhado. Não podia jogar fora. Não podia jogar o ácido a mãos outras. Era sua responsabilidade. Mas o ácido era da mãe, não podia desperdiçar. Não podia corrompê-lo com o nada, posto que mais que niilista, o ativo era pragmático.

 

Lembrou do resto da sujeira. Sujeira virou solução. Jorrou o muriático nos azulejos, aqueles com a sujeira que, não sabia bem porquê, a incomodavam. Talvez fosse a mãe, que a fez notar pela primeira vez. Jorrou ácido para por fim a tudo. Já não usava mais luvas. Só o que a protegia era a própria sujeira. A imundície de si transtornada. derramada. nua. Suas mãos descascavam. Jogou-o pirilampiando por tudo onde podia ver. Como uma criança com espuma de carnaval. Jorrava muriático por todo o espaço. Ácida festa.

 

Foi limpar o resto, pôs tudo em um saco. Quanto gastara ali e tudo indo para o lixo, pensaria a mãe. Mas alívio era. Limpo. Branco. Estava.

Alívio, ele não teria mais nojo de ali estar.

Só nela. Nela teria. Ficaria com as outras, limpas. Jamais tocaria de novo em alguém tão impuro, pensava.

 

Jogou tudo no lixo e foi se livrar da própria sujeira. Abriu o chuveiro e choveu felicidade: a água estava gelada, mesmo após um dia quente. Benção dos deuses. Água muriáldica. Ensaboou-se com dois sabonetes ao mesmo tempo. Água jorrava e lavava sua alma. Estava acabado. Ela conseguira. Fizera por ele. Fizera o que ele não conseguia e o que dizia não ser possível. Ela fez. Por amor.

 

Em êxtase e infinitamente molhada de água boa, enfim relaxou.

Encostou na parede para respirar em paz.

Para no segundo seguinte haver um grito ensurdecido pela sua própria imensa dor.

Caiu no chão. Já não caía mais água benta. Caía ácido, que a tomou inteira. Caía ácido, e o tomou inteiro. Caía ela que, como em banheira, mergulhou para a vida límpida eterna.

Telemorte

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De novo, na labuta

Lá botando

Todo ardor

Que deveria

Só ser dado

Pra quem é

O teu amor.

 

Depois, vem o estado

de cansaço,

de ser dor

de não ter nem um domingo

pra ao amado

dar amor.

 

No fim, se espera a morte

Vida triste, vitorina

Sem vitória,

Só descaso,

Sem descanso,

Só trabalho.

Após o auto-erotismo

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Ainda na segunda fase do espelho,

animalescamente Outro nos constituímos:

dois antinarcisos-egoniilistas

só ao Outro podemos amar (mentimos).

 

Mas em ti só vejo o que me deixam os olhos

(os da alma, que só meus são)

Não me reconheço na imagem que aparece

mas me sinto em ti quando então

o aparentemente altruísta cobertor

a meu corpo e a seu ego aquece.

 

 

Antes Alice, sem não ou sim

Agora límpido espelho;

Amor sem borda, em que mergulho

me faz ficar fora de mim

 

Vamos um dia passar para a terceira fase

nesse estádio de jogos perdidos?

Nela nasceremos um ou seremos para sempre

um só sujeito partido?

 

acumulação flexível de cimento

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trabalha a dor

misturada com o cimento

fluido

flexível

diluído

e aplicada à rede

que de um lado é cliente

que nada sente

e do outro é você

que só consente.

 

6 partes de areia

1 parte de cal

1 de água

você é o balde

argamassa

argamata

entra pastoso

vira concreto

sai muro

de lamentações

panóptico.

no centro,

a dor;

no resto,

otimizado

focado

controlado

você:

trabalhador.

 

A alteridade que nos faz entender-nos

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O inferno são os outros, diz o egocêntrico.

Com ele fazem coro os impacientes mas, curiosamente, também o recalcado (não seriam os mesmos?).

Porque aprofundar-se no outro é conhecer a si mesmo: não porque somos irmãos, mas porque o outro é a nossa própria alteridade.

Há mais de três anos me confronto cotidianamente com alguém. Alguém que ocupa lugares diametrialmente opostos na sociedade, em relação aos meus.

Essa relação, pela qual perpassam muitos conflitos, me mostrou que o amor pode se criar em terrenos desiguais: a grande maioria das pessoas pelas quais eu me interesso desde adolescente é ao menos um pouco estranha à sociedade: homens de cabelo longo, mulheres de cabelo curto, piercings, cabelos coloridos, rostos assimétricos, roupas largadas e tudo o que a moda dita hipster hoje acopla; Mas Vitor é, desde que estamos juntos, um homem padrão de cabelos castanhos curtos.

Essa relação me mostrou também a mim mesma. Ele, sendo um espelho invertido de mim mesma, fez-se espelho em minhas vistas: ele homem, eu mulher. ele branco europeu, eu preta árabe. ele magro, eu gorda. ele heterossexual, eu lgbt. Minha identidade quanto a tudo isso que já me considerava se reafirmou diante da convivência com ele.

E isso não foi uma tentativa masoquista, de perpetuar uma relação sofrida até que se acabasse.

Não foi também uma tentativa egocêntrica, de me evidenciar como diferente dele, para assim me empoderar ou ser a constante da relação.

Não. Indentidades, como tais, não existem por si só: um gay só é diferente enquanto tal de um heterossexual porque assim a sociedade o diz; um negro só é diferente  enquanto tal de um branco porque assim a sociedade o diz; uma mulher só é diferente enquanto tal de um homem porque assim a sociedade o diz. E quando a sociedade diz, ela coloca um como melhor que o outro – mais: evidencia uma diferença fisica como moral/estrutural/social porque precisa colocar um como melhor que o outro. E quando faz isso, pode acreditar, vai haver consequências. E em tendo consequências, precisamos nós assumirmos as ditas diferenças, para lutar a partir disso – visando um futuro no qual, quem sabe, uma mulher que goste de outra mulher seja só mais um ser humano entre tantos.

Então: nunca me senti tão mulher e preta (diferenças mais visíveis à sociedade) como me sinto do lado do Vitor. Nunca me senti tão marginal. E isso me fez refletir sobre toda uma vida pretensamente igual, uma vida pretensamente branca.

Junto dele, me sinto mulher. Porque não é a mulher que paga por nada, mas sempre seu namorado. Não é ela que deve receber, então, desde o bom-dia a resposta alguma. Junto dele, me sinto anulada, desprezada seja em um trem até a Central do Brasil ou em um ponto turístico da Zona Sul, sou tratada diferente.

Junto dele, me sinto preta. Porque é com brancas que ele deve ficar, brancas rosadas do cabelo liso e traços italianos, não com uma “neguinha”, como o pai dele se referiu a mim, ao tentar descobrir com qual garota ele estava ficando. Me sinto preta diante de seus cabelos lisos e traços italianos, diante do meu cabelo crespo e nariz largo.

Junto dele, me sinto até mesmo carioca. Porque as cariocas são todas piranhas e dão pra qualquer um, nessa favela gigante que é o Rio, ao contrário da Europa Brasileira, cheia de princesas, que é o Sul.

Me sinto porque é como me tratam diante dele. Alguns falariam que ele é que parece playboy demais. Eu poderia concordar: alguém que foi assaltado cinco vezes em quatro meses tem que ter algo de diferente. Esse algo de diferente, é claro, perpassa o capital: acham que Vitor (cujo salário desse mês foi 575 reais) tem dinheiro. Mas acham isso por um motivo: racismo. Vitor anda como eu, com roupas como eu (largadas, sujas), mas Vitor não é como eu. Diante de tanta multietnicidade carioca, Vitor é branco. Um homem branco padrão. E em havendo tantos Vitors diante do mundo, percebo o quanto não sou detentora desses aspectos privilegiados na sociedade brasileira.

Esses são talvez os principais motivos pelos quais prefiro ficar junto dele, mas sem os outros. Posso sentir mais ele, e sentir mais eu, sem perpassar por nós tantas opiniões diferenciadoras da sociedade. Sozinhos em casa, podemos ser mais amor, e menos alteridade.