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a-maré dezembro 27, 2011

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 4:14 am

I

Ele bateu a porta e foi embora. Não foi de forma muito agressiva, mas uma batida de porta é
sempre uma batida de porta. Eu não chorei. Me senti leve.

Ele nada tinha aqui em casa. Deu-se por completo, mas nunca houvera aqui algum objeto seu.

Suas roupas

Suas coisas

Seus livros

Seus escritos

Seus fiapos de cabelo

Nem seu cheiro

Nada jazia pela casa

Acabou. E era um alívio não ter nada em comum para se desfazer: nem chaves, nem cadeados.
Era um alívio não ter lençois e roupas de cama, pares de toalha e alianças. Era um alívio não
ter as sobras de tudo o que chamam lar para trocar em miúdos. Era um alívio nunca ter tido
esperança.

II

O tempo me fez novamente perceber o quanto ainda sou imatura. Eu acreditei no que toda
a gente, toda a televisão, toda a música de Chico Buarque dizia. Eu acreditei que só havia
sofrimento se houvesse amor, e que só haveria amor se houvesse roupas para jogar pela
janela e presentes para se jogar ao chão.

Mas hoje vejo marcas bem visíveis do amor, e elas estão bem na minha face. Pode não ter
havido nenhum nós. Mas houve um eu, um você, e isto ainda está em mim, sem eu saber o
que fazer.

III

Não choro de forma dilacerante. Mas redescobri que sempre sofri sem fazê-lo. Estou
mergulhada em outras águas, que não parecem fazer muito sentido no momento. Eu tento me
segurar em alguma boia ou algum pedaço de madeira que seja. E tudo o que me vem é ele.

Era eu a mais velha mas foi ele que me ensinou a nadar. Parece que é sempre assim com as
mulheres, mas não porque eles aprendem mais rápido, apenas porque são colocados logo em
contato direto com o mar, enquanto nós somos postas em belas piscinas que nos enganam
sobre as fortes águas marinhas contra as quais teremos que marchar por toda a vida. Eu, até

ali, usava boias. Já fazia quase uma prancha. Mas ele me ajudou a nadar, e isso mudou tudo:
minha visão, minha respiração, meu corpo. Só que agora ele se foi, e eu tenho de fazer isso
sozinha. Me afogar em lágrimas não parece um bom começo.

IV

E, de repente, eu vejo que tudo que me dá um mínimo de alegria nestes dias provém de quem
eu menos gostaria de lembrar. A astrologia, a geografia, a música clássica. Parece besteira,
mas quando você está afundando, o mínimo de luz parece essencial.

V

E eu passei dias nisso. Tentando me desprover de qualquer lembrança da relação e de
qualquer relação dele com aquelas coisas que estavam me salvando.

Não havia mais ninguém para me mostrar músicas novas e partituras incríveis, muito menos
para me contar as histórias deliciosas por trás delas. Eu e a música estávamos mais uma vez
sozinhas. Mas eu não ia anulá-la como sempre era, fazendo dela um simples instrumento
de diversão e não de reflexão. Eu estava sozinha. Era mais trabalhoso. Mas era necessário.
Comecei a pesquisar sobre a teoria da música, os grandes mestres, os instrumentos. Descobrir
novos clássicos e velhas partituras ainda não me apresentadas, e as histórias sobre elas era eu
mesma que procurava e entendia. E assim eu senti a música viva em mim.

Já não mais havia também ninguém para me explicar os signos e os ascendentes. Era
desesperador. Tudo aquilo de lindo que eu aprendera e vivera, tudo aquilo de profundo,
estava intangível agora. Era eu, sem nenhum instrumento, apenas com o conhecimento antes
obtido, que precisava seguir sozinha. E se antes vivia cheia de manuais e relatos de outras
pessoas, para seguir-lhe os passos, agora eu tinha o orgulho de fazer por mim mesma, sem
dica ou ajuda. Comecei a olhar para cima e perceber os reluzentes astros. Estudei como a
astrologia surgiu e até duvidei um pouco dela. E assim eu a senti como um processo, do qual
eu fazia parte.

Olhei também para a terra e para a Terra. Antes havia ele para me fazer perceber a mesma
paisagem antes tão simples, o mesmo espaço antes tão nulo de significado, com todas suas
percepções profundas e magníficas. Agora era só eu. Me perdi por muitas vezes, achei que o
mundo viraria um eterno labirinto onde jamais me encontraria. Mas não. Quando você olha a
totalidade, um mero Cruzeiro do Sul vira sua principal bússola. Eu entendi, sozinha, um pouco
mais da realidade das coisas, e tirei minhas próprias conclusões sobre o mundo. E assim eu me
senti senhora de mim mesma.

VI

Comecei a agir sobre as coisas que gostava, e delas saíram outras coisas. O mais bonito
disso era que eu descobri a sensação que ele devia ter quando me passou tudo o que
passou: quando me vi, estava explicando o mundo como eu entendia (e em parte como
eu tinha descoberto) para outras pessoas. Como fizeram comigo antes, estava eu também
transformando a vida dessas pessoas, aumentando seu campo de visão, dando a elas novos
elementos para pensar a realidade. Fazendo-as sorrir. Foi um novo processo, que me fez
aprofundar nas coisas das quais falava, nas pessoas para as quais falava e sobre mim mesma.
Foi uma nova descoberta. E o que faltava para eu subir de volta à superfície. Dessa vez com
muito mais fôlego.

VII

Mas hoje, o meu novo mundo pausou por algum momento. Nada mais que o tempo de um
banho, mas ainda assim, me senti entre a raiva e a inferioridade (sem saber para qual lado
pendia mais). Ele havia me visto conversar com um grupo de novos amigos nesta manhã.
Discutíamos a vida, simplesmente, e eu coloquei para eles tudo o que havia constituído como
reflexão neste tempo, todas as minhas sínteses: o que percebi das coisas, o que aprendi com
o mundo, o que inventei. Estava fazendo o que me é de costume agora: tentar passar para os
outros o que percebo, e receber deles percepções, constituindo assim novas coisas. Apenas
isso.

Nós não havíamos nos falado desde o fim. Mas quando cheguei em casa, havia uma
mensagem no telefone, dizendo: “Achei maravilhoso tudo o que você falou na discussão. Me
senti orgulhoso!”.

Com estas palavras, ele conseguiu com que eu fizesse outra descoberta, desta vez sobre o
nó que éramos nós. Desde que terminamos, eu sentia certo peso em mim: uma gratidão por
ele, que ao mesmo tempo era a culpa dessa gratidão. Mas hoje eu vi que às vezes não é só
necessário nadar por si mesmo, mas também, continuar sozinho o ato, para que na hora da
fraqueza, seja você mesmo que respire e continue nadando.

Com estas palavras, ele quis se reapropriar de tudo aquilo que eu havia me apropriado,
tomado para mim e transformado. Ele quis se apropriar do que agora era meu. Do que
agora era eu. Do que eu nem lembrava mais que um dia havia sido dele, de tanto que já se
modificara.

Esta nova descoberta me faz, então, por fim concluir esta relação, que no fim já jazia somente
em mim mesma. Este ato me mostrou que a realidade é bem mais complexa do que em sua
primeira percepção: e as palavras que me fizeram afundar por breve momento, me tiraram
também o peso que não me permitia nadar tão livremente como agora.

 

escrito há alguns meses; mas seria indelicado publicar.

 

One Response to “a-maré”

  1. Danielle Diz:

    É… Thaiz, por pior que seja uma dor, ela sempre passa.


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