Quando morreu meu avô, eu era menor.
Disseram que estava quase sorrindo, com uma face tranqüila. Nem cheguei perto do cadáver direito. Não era por medo, mas porque aquilo não fazia sentido para mim. Eu era livre naquele momento. Mas fiquei presa por anos crendo no dia que chegaria sua alma para me cumprimentar.
Minha avó morreu esses dias.
Eu não vi apenas o cadáver arrumado pelos profissionais do cemitério, com algodão na boca, pó, e escondendo o sangue gelado da parte de trás da cabeça, cheio de flores por todo o corpo e com face tranqüila. Eu vi o cadáver cru e assustado de antes, sem maquiagem, sem tranqüilidade. E por obrigação, porque alguém tinha que reconhecer que era a minha avó ali. Mas eu me surpreendi comigo mesmo, quando na hora do enterro, tinha em mim certo apego pelo corpo da minha avó. Sempre achei que isso era coisa de religiosos. Mas não. Eu ali era a única que acreditava que aquele corpinho que tanto me abraçou, tanto cantou para mim, tanto me fez cafuné era o que sobrara da minha avó. Era aquela pele, aquele cabelo, aqueles olhos agora cerrados. Não outros que me abraçariam quando eu chegasse no céu. Eu não achava que ela estava sentindo meu carinho em seus cabelos nem minhas lágrimas em seu rosto. Eu sabia que era só corpo. Mas o corpo era a única coisa que restara. E aqueles eram os últimos momentos que eu poderia guardar daquela pessoa que antes me fizera tão feliz e que em breve seria ossos e poeira.