Eles dizem que essa vida é só passagem. Que aqui o que se tem a fazer é se doar a Deus e à Igreja. Tentar não pecar. Se reproduzir, e fim. Depois virá a vida real, completa, e rica, onde se unirão a Deus e viverão uma vida plena e eterna.
A gente diz que só tem essa vida, que depois é só terra e verme. E é por isso mesmo que tem que se viver plenamente. Não sou ateia (termo tão paradoxal) por escolha ou vantagens. Até porque se fosse por isso, ter conforto divino sempre que se precisa é bem mais legal do que encarar a realidade. Só acho que todas essas crenças são mitologia, como eles mesmos sabem que eram Hórus e Atenas. Mas se podemos considerar alguma “recompensa” em não acreditar em ilusões, ela consta em plenitude no verbo viver.
Entre tantas outras, é isso uma convergência entre o ateísmo e o marxismo (e para os bons observadores, entre a religião e o sistema dominante): viver em plenitude não é possível em nossa sociedade. Por isso lutamos, para enfim podermos nos desalienar do capital e sermos humanos. Muito além de lutar para que não haja mortes estúpidas como por fome ou frio, lutamos por viver, em amplo sentido.
Já a religião diz que devemos orar. Orar, mas a vontade de deus é plena. A vontade de deus é plena. A vontade de deus é plena. Logo, ele aceita todo este sistema carnificeiro (porque essa desculpa de “é ruim, mas devemos passar por isso” não cola, para o burguês cheio da grana). Logo, é um discurso da ordem, que faz as pessoas aceitarem esse sistema, já que lá no céu vai ser mais legal. Para a vontade de deus ser plena no mundo em que vivemos ou deus é um burguês filho da puta, ou ele não existe. Acho a segunda alternativa mais provável.