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Charme depois de ele ir janeiro 25, 2012

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 7:44 am

Acho que não, acho que não sou digna.

O problema já começa pelo nome:

Thaiz nunca foi nome de ser amado.

 

Gritada pela janela, na hora em que eu nasci, 

“Thaiz, eu fiz tudo pra você gostar de mim” foi só uma grande paródia inventada pelos meus familiares, 

para me consolar pelo futuro cruel.

 

a insustentável leveza do ser janeiro 22, 2012

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 12:15 pm

“Eu não consigo me ser com você” foram as primeiras palavras do encontro.

… E fugia de seus olhos minuciosos, seus olhos de cientista, e sem nenhuma sedução.

… E se inspirava com o contato: a poesia estava nele, escondida, em algum lugar.

… E no tocar de uma ferida, seus olhos se disfarçavam, em um brilho forte e falso.

… E o sentido se perdia a cada fim de dia, em um desgastante cansaço do ser alheio.

… E o sentido se reconstruía a cada manhã, com aquele olhar e com aquela racionalidade.

Ele era doloroso e ela não precisava prosseguir.

Mas havia curiosidade.

E algo mais. 

 

entre pinturas e poltronas janeiro 9, 2012

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 12:54 am

os guardas de museus reprimem nossas mãos quando estas tocam os preciosos objetos.

mal sabem eles,

o mais perigoso já fizemos:

é pôr-lhe os olhos.

 

haikai da espera janeiro 7, 2012

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 10:11 pm

a esperança

tem de vir

da experiência

 

A estante e a vida janeiro 7, 2012

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 9:52 pm

Arrumando a estante

constato pilhas e pilhas de materiais da faculdade:

 

capítulos xerocados

pedaços de matéria

páginas soltas escritas à mão

que tomam todas as prateleiras.

 

E é tanta tanta tanta folha

que a estante de livros

fica sem espaço para a poesia.

 

 

a-maré dezembro 27, 2011

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 4:14 am

I

Ele bateu a porta e foi embora. Não foi de forma muito agressiva, mas uma batida de porta é
sempre uma batida de porta. Eu não chorei. Me senti leve.

Ele nada tinha aqui em casa. Deu-se por completo, mas nunca houvera aqui algum objeto seu.

Suas roupas

Suas coisas

Seus livros

Seus escritos

Seus fiapos de cabelo

Nem seu cheiro

Nada jazia pela casa

Acabou. E era um alívio não ter nada em comum para se desfazer: nem chaves, nem cadeados.
Era um alívio não ter lençois e roupas de cama, pares de toalha e alianças. Era um alívio não
ter as sobras de tudo o que chamam lar para trocar em miúdos. Era um alívio nunca ter tido
esperança.

II

O tempo me fez novamente perceber o quanto ainda sou imatura. Eu acreditei no que toda
a gente, toda a televisão, toda a música de Chico Buarque dizia. Eu acreditei que só havia
sofrimento se houvesse amor, e que só haveria amor se houvesse roupas para jogar pela
janela e presentes para se jogar ao chão.

Mas hoje vejo marcas bem visíveis do amor, e elas estão bem na minha face. Pode não ter
havido nenhum nós. Mas houve um eu, um você, e isto ainda está em mim, sem eu saber o
que fazer.

III

Não choro de forma dilacerante. Mas redescobri que sempre sofri sem fazê-lo. Estou
mergulhada em outras águas, que não parecem fazer muito sentido no momento. Eu tento me
segurar em alguma boia ou algum pedaço de madeira que seja. E tudo o que me vem é ele.

Era eu a mais velha mas foi ele que me ensinou a nadar. Parece que é sempre assim com as
mulheres, mas não porque eles aprendem mais rápido, apenas porque são colocados logo em
contato direto com o mar, enquanto nós somos postas em belas piscinas que nos enganam
sobre as fortes águas marinhas contra as quais teremos que marchar por toda a vida. Eu, até

ali, usava boias. Já fazia quase uma prancha. Mas ele me ajudou a nadar, e isso mudou tudo:
minha visão, minha respiração, meu corpo. Só que agora ele se foi, e eu tenho de fazer isso
sozinha. Me afogar em lágrimas não parece um bom começo.

IV

E, de repente, eu vejo que tudo que me dá um mínimo de alegria nestes dias provém de quem
eu menos gostaria de lembrar. A astrologia, a geografia, a música clássica. Parece besteira,
mas quando você está afundando, o mínimo de luz parece essencial.

V

E eu passei dias nisso. Tentando me desprover de qualquer lembrança da relação e de
qualquer relação dele com aquelas coisas que estavam me salvando.

Não havia mais ninguém para me mostrar músicas novas e partituras incríveis, muito menos
para me contar as histórias deliciosas por trás delas. Eu e a música estávamos mais uma vez
sozinhas. Mas eu não ia anulá-la como sempre era, fazendo dela um simples instrumento
de diversão e não de reflexão. Eu estava sozinha. Era mais trabalhoso. Mas era necessário.
Comecei a pesquisar sobre a teoria da música, os grandes mestres, os instrumentos. Descobrir
novos clássicos e velhas partituras ainda não me apresentadas, e as histórias sobre elas era eu
mesma que procurava e entendia. E assim eu senti a música viva em mim.

Já não mais havia também ninguém para me explicar os signos e os ascendentes. Era
desesperador. Tudo aquilo de lindo que eu aprendera e vivera, tudo aquilo de profundo,
estava intangível agora. Era eu, sem nenhum instrumento, apenas com o conhecimento antes
obtido, que precisava seguir sozinha. E se antes vivia cheia de manuais e relatos de outras
pessoas, para seguir-lhe os passos, agora eu tinha o orgulho de fazer por mim mesma, sem
dica ou ajuda. Comecei a olhar para cima e perceber os reluzentes astros. Estudei como a
astrologia surgiu e até duvidei um pouco dela. E assim eu a senti como um processo, do qual
eu fazia parte.

Olhei também para a terra e para a Terra. Antes havia ele para me fazer perceber a mesma
paisagem antes tão simples, o mesmo espaço antes tão nulo de significado, com todas suas
percepções profundas e magníficas. Agora era só eu. Me perdi por muitas vezes, achei que o
mundo viraria um eterno labirinto onde jamais me encontraria. Mas não. Quando você olha a
totalidade, um mero Cruzeiro do Sul vira sua principal bússola. Eu entendi, sozinha, um pouco
mais da realidade das coisas, e tirei minhas próprias conclusões sobre o mundo. E assim eu me
senti senhora de mim mesma.

VI

Comecei a agir sobre as coisas que gostava, e delas saíram outras coisas. O mais bonito
disso era que eu descobri a sensação que ele devia ter quando me passou tudo o que
passou: quando me vi, estava explicando o mundo como eu entendia (e em parte como
eu tinha descoberto) para outras pessoas. Como fizeram comigo antes, estava eu também
transformando a vida dessas pessoas, aumentando seu campo de visão, dando a elas novos
elementos para pensar a realidade. Fazendo-as sorrir. Foi um novo processo, que me fez
aprofundar nas coisas das quais falava, nas pessoas para as quais falava e sobre mim mesma.
Foi uma nova descoberta. E o que faltava para eu subir de volta à superfície. Dessa vez com
muito mais fôlego.

VII

Mas hoje, o meu novo mundo pausou por algum momento. Nada mais que o tempo de um
banho, mas ainda assim, me senti entre a raiva e a inferioridade (sem saber para qual lado
pendia mais). Ele havia me visto conversar com um grupo de novos amigos nesta manhã.
Discutíamos a vida, simplesmente, e eu coloquei para eles tudo o que havia constituído como
reflexão neste tempo, todas as minhas sínteses: o que percebi das coisas, o que aprendi com
o mundo, o que inventei. Estava fazendo o que me é de costume agora: tentar passar para os
outros o que percebo, e receber deles percepções, constituindo assim novas coisas. Apenas
isso.

Nós não havíamos nos falado desde o fim. Mas quando cheguei em casa, havia uma
mensagem no telefone, dizendo: “Achei maravilhoso tudo o que você falou na discussão. Me
senti orgulhoso!”.

Com estas palavras, ele conseguiu com que eu fizesse outra descoberta, desta vez sobre o
nó que éramos nós. Desde que terminamos, eu sentia certo peso em mim: uma gratidão por
ele, que ao mesmo tempo era a culpa dessa gratidão. Mas hoje eu vi que às vezes não é só
necessário nadar por si mesmo, mas também, continuar sozinho o ato, para que na hora da
fraqueza, seja você mesmo que respire e continue nadando.

Com estas palavras, ele quis se reapropriar de tudo aquilo que eu havia me apropriado,
tomado para mim e transformado. Ele quis se apropriar do que agora era meu. Do que
agora era eu. Do que eu nem lembrava mais que um dia havia sido dele, de tanto que já se
modificara.

Esta nova descoberta me faz, então, por fim concluir esta relação, que no fim já jazia somente
em mim mesma. Este ato me mostrou que a realidade é bem mais complexa do que em sua
primeira percepção: e as palavras que me fizeram afundar por breve momento, me tiraram
também o peso que não me permitia nadar tão livremente como agora.

 

escrito há alguns meses; mas seria indelicado publicar.

 

a morte não é vida dezembro 21, 2011

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 1:18 am

Eles dizem que essa vida é só passagem. Que aqui o que se tem a fazer é se doar a Deus e à Igreja. Tentar não pecar. Se reproduzir, e fim. Depois virá a vida real, completa, e rica, onde se unirão a Deus e viverão uma vida plena e eterna.

A gente diz que só tem essa vida, que depois é só terra e verme. E é por isso mesmo que tem que se viver plenamente.  Não sou ateia (termo tão paradoxal) por escolha ou vantagens. Até porque se fosse por isso, ter conforto divino sempre que se precisa é bem mais legal do que encarar a realidade. Só acho que todas essas crenças são mitologia, como eles mesmos sabem que eram Hórus e Atenas. Mas se podemos considerar alguma “recompensa” em não acreditar em ilusões, ela consta em plenitude no verbo viver.

Entre tantas outras, é isso uma convergência entre o ateísmo e o marxismo (e para os bons observadores, entre a religião e o sistema dominante): viver em plenitude não é possível em nossa sociedade. Por isso lutamos, para enfim podermos nos desalienar do capital e sermos humanos. Muito além de lutar para que não haja mortes estúpidas como por fome ou frio, lutamos por viver, em amplo sentido.

Já a religião diz que devemos orar. Orar, mas a vontade de deus é plena. A vontade de deus é plena. A vontade de deus é plena. Logo, ele aceita todo este sistema carnificeiro (porque essa desculpa de “é ruim, mas devemos passar por isso” não cola, para o burguês cheio da grana). Logo, é um discurso da ordem, que faz as pessoas aceitarem esse sistema, já que lá no céu vai ser mais legal. Para a vontade de deus ser plena no mundo em que vivemos ou deus é um burguês filho da puta, ou ele não existe. Acho a segunda alternativa mais provável.

 

A relação com a carne já fria dezembro 21, 2011

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 12:25 am

Quando morreu meu avô, eu era menor.

Disseram que estava quase sorrindo, com uma face tranqüila. Nem cheguei perto do cadáver direito. Não era por medo, mas porque aquilo não fazia sentido para mim. Eu era livre naquele momento. Mas fiquei presa por anos crendo no dia que chegaria sua alma para me cumprimentar.

 

Minha avó morreu esses dias.

Eu não vi apenas o cadáver arrumado pelos profissionais do cemitério, com algodão na boca, pó, e escondendo o sangue gelado da parte de trás da cabeça, cheio de flores por todo o corpo e com face tranqüila. Eu vi o cadáver cru e assustado de antes, sem maquiagem, sem tranqüilidade. E por obrigação, porque alguém tinha que reconhecer que era a minha avó ali. Mas eu me surpreendi comigo mesmo, quando na hora do enterro, tinha em mim certo apego pelo corpo da minha avó. Sempre achei que isso era coisa de religiosos. Mas não. Eu ali era a única que acreditava que aquele corpinho que tanto me abraçou, tanto cantou para mim, tanto me fez cafuné era o que sobrara da minha avó. Era aquela pele, aquele cabelo, aqueles olhos agora cerrados. Não outros que me abraçariam quando eu chegasse no céu. Eu não achava que ela estava sentindo meu carinho em seus cabelos nem minhas lágrimas em seu rosto. Eu sabia que era só corpo. Mas o corpo era a única coisa que restara. E aqueles eram os últimos momentos que eu poderia guardar daquela pessoa que antes me fizera tão feliz e que em breve seria ossos e poeira.

 

Beyond The Realms Of Death dezembro 20, 2011

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 11:58 pm

A verdade é dura e machuca pelos que prezam por ela.

Para nós, é muito mais difícil.

Em situações de morte, medo eterno da vida, a verdade é incrivelmente dolorosa. E não há para quem correr.

É incrivelmente pior.

Saber que aquela pessoa ali, que você tanto amava, agora não passa de carne fria sob a terra, a qual os micróbios serão os únicos companheiros durante o resto da eternidade. Simples assim.

Saber que não haverá um grande deus para acolher a “alma”, esta parte que habita quase alienadamente o corpo, e ficar com ele esperando o juízo final.

Saber que não haverá um lindo paraíso para aquela pessoa que tantas caridades fez em vida, tantos dízimos pagara, tantos terços rezara.

Saber que não haverá a justiça divina que trará paz para a pessoa que tanto sofreu, que tanto foi explorada, oprimida e violentada pela vida.

Saber que não haverá bons espíritos para fazerem aquela pessoa entender que morreu, acalmarem-na e a encaminharem para uma nova vida de trabalho e luz.

Saber, acima de tudo, e com muita dor, que não se vai reencontrar essa pessoa morta, no dia que se morrer. Sentir de novo seu abraço, ver novamente seu sorriso brilhante, ouvir sua voz e se aconchegar em seus braços como se aquilo fosse a última coisa a se fazer no mundo. Não. Nunca mais. Reencontro, nunca mais. Só corpo e terra frios.

E se engana quem pensa que buscar a razão tem em apenas nisso o sofrimento. Nos momentos mais próximos à morte de alguém querido, por muitas vezes família e amigos se reúnem para celebrar a passagem para a outra vida ou apoiar em dor os parentes mais próximos do morto. E sempre se ouve os mesmos dizeres.

Ela está num lugar melhor agora;

Ela morreu na hora que tinha que morrer;

Agora que a vida se inicia de verdade para ela;

Ah… Que conforto! Que bom seria! Mas aos que prezam pela verdade, essas palavras não tem o  efeito desejado. Muitas vezes até revoltam, já que, não, não tinha de ser desse jeito, não precisava ser assim, e todas essas pessoas acreditam nisso. É uma ordem inventada, irreal. Sinto muito.

Coragem. É o mais necessário aos que não creem em invenções. Coragem para abrir os olhos e ser maduro o suficiente para não precisar de histórias boas para aceitar uma morte. Não precisar de nenhum deus para te segurar nos maus momentos, nem nenhuma religião para te dar consolo.  Coragem. Encarar a verdade do cadáver deitado no caixão. Frio. Morto. Uma história inteira indo a sete palmos abaixo de todos nós. Isto é a verdade.

 

 

Réquiem: 80 anos de história findam em uma onomatopeia dezembro 20, 2011

Filed under: Uncategorized — likekiwi @ 11:20 pm

Vou dar uma fugidinha, suas últimas palavras conhecidas.

Tinha uma lista na bolsa

- Assa-peixe

- Sapatos

- Calcinhas

E quatrocentos reais.

Pegou ônibus ao invés de táxi dessa vez.

Saltou,

Veio o automóvel.

E assim foi embora a pessoa mais meiguinha que conheci.

Dizem que foi de temosia.

Mas eu sei que foi de solidão.

 

 
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